quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O Fim - Parte 1

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Manuel ainda se lembrava daquele dia como se fosse ontem, era véspera de Natal e a alegria reinava na casa Um aroma a especiarias e doces o lar dos seus avós, completando o espírito natalício que invadia os espíritos de todos os habitantes. Os risos das crianças ecoavam nas paredes, elas corriam felizes enquanto aguardavam a visita do Pai Natal, o qual traria as suas prendas. Na cozinha a avó Maria preparava os últimos doces enquanto as outras mulheres preparavam a ceia. O avô Fernando fumava na sala e bebia o seu Bourbon na sala, enquanto conversava com os filhos e genros. A cor das paredes alterava-se com as luzes da enorme e velha árvore de Natal que ocupava o seu tradicional lugar junto à janela, para que todos os que passavam a pudessem ver. No presépio repousava nas palhinhas o Deus-Menino recém-nascido, sob o olhar protector dos seus pais, José e Maria.
O tema central da conversa era a crise que se alargava à escala mundial. Cada vez mais países entravam-se em risco de falência como se um qualquer poder oculto estivesse a manobrar a economia como se de uma marioneta se tratasse. Filipe, o mais velho, perdera o emprego e sem este provavelmente também ficaria sem a casa. O governo havia aumentado os impostos em tudo e cortara naquilo que achava supérfluo, como era o caso da cultura. Os bilhetes de cinema estavam a preços astronómicos, e a população, pobre e explorada, não tinha dinheiro para os pagar. Os livros haviam deixado de ser um prazer acessível, as peças de teatro e bailados eram raros uma vez que haviam perdido o apoio financeiro que suportava a maioria dos custos. Quem possuía livros fora obrigado a registá-los no recém-criado Ministério do Livro.
Apesar da crise, o avô Fernando havia comprado prendas para todos. Existia o habitual par de peúgas e, para além disso, livros para todos. Desta vez não conseguira comprar na libraria exemplares novos, visitou um dos poucos alfarrabistas que ainda tinham as portas abertas e comprou aqueles que achou ideais para cada um deles. Ele tinha um dom, conseguia escolher o livro perfeito para cada um ler num momento particular da sua vida. Se estavam desanimados e em baixo, Fernando escolhia o livro perfeito para levantar o espírito da pessoa em causa.
Aquele era um dia para se esquecerem os problemas. Era um dia para se estar com a família e desfrutar dos poucos momentos felizes que ainda lhes restavam.
A avó Maria tirou do baú a velha toalha que bordara quando ainda era solteira, lá permaneceu por um ano em repouso. A mesa era pobre mas estava cheia, para além do bacalhau, também tinham perú, para quem não apreciava peixe. Este fora providenciado pelo Senhor Antunes, velho colega da escola do avô Fernando, o qual possuía uma quinta. Os doces, esses, estavam na mesa da sola, bem escondidos do gato que passeava tentando partilhar da consoada.
Estavam todos sentados à mesa, riam-se e partilhavam a ceia, enquanto o gordo gato tentava surripiar algo. No Natal esqueciam todas as preocupações e tristezas, era um momento para a família. As luzes da árvore reluziam pintando as paredes de diversas cores.
Mas, durou pouco, homens armados deitaram a porta abaixo e entraram pela casa adentro. Apontaram a arma ao seu avô Fernando.
- Diga-me onde eles estão! – Gritou o primeiro homem encapuçado.
- Não sei do que falam. – Começou o avô Fernando assustado. – É Natal, tenho aqui as crianças. Por favor baixem as vossas armas.
- Devia ter pensado nisso mais cedo. Antes de quebrar a lei, não lhe pergunto novamente. Onde estão os livros?
- Eu não tenho livros nenhuns! – Resmungou o avô Fernando.
Este apenas queria fazer com os homens partissem.
- Nós sabemos que os tem, um dos seus comparsas deu com a língua nos dentes. Você negou-se a os ir registar quando o ordenaram e agora tem-los guardados algures. Pois as coisas vão funcionar assim, ou nos diz as coisas a bem ou nos diz as coisas a mal. O que os seus netinhos diriam se nós o arrastássemos para fora de casa em frente deles hein. Nós temos o pavio curto podemos fazer mal a algum inocente que aqui está. Pense bem! – Insistiu o homem.
- Eu já lhes disse que não sei de nada! – Resistiu o avô Fernando.
- Bem, então vai ser do modo difícil. Levem-no… - Respondeu o homem. O pai do Manuel, Tomás e os seus irmãos mexeram-se para impedir o pior. – Matem quem interferir.
O avô Fernando fez sinal aos filhos para ficarem quietos. Se ficassem feridos ou morressem não ia mudar nada. Era ele quem os outros queriam. Se os acompanhasse a sua família ficaria em segurança. Essa seria a última vez que ele o veria, a sair com ar altivo de sua casa, sem receio, nem gritos, nem medo.

(Continua...)
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