Ouço
passos na escada. O meu coração salta sobressaltado. Será ele?
Instintivamente,
encolho-me sobre mim mesma, dominada pelo temor que o seja. Olho expectante
para a porta, cada segundo que passa parece-me uma eternidade enquanto espero
por ouvir a sua chave na fechadura. Quem quer que fosse, passa à minha porta e
continua. Suspiro aliviada.
“Ainda não!” Penso num suspiro.
As
lágrimas começaram a escorrer. Vou até à casa de banho limpar o meu rosto. A
imagem que o espelho me devolve é uma de um rosto maltratado, cheio de nódoas negras. Nunca vou à rua, permaneço em casa sozinha, tanto por medo dele, da sua
reacção, como por vergonha, não queria que me vissem assim. Derrotada.
Lembro-me
de quando era mais nova, da força de viver que tinha. Ai! As saudades que eu
tenho desse tempo. Sinto saudades do tempo em que vivia livre do medo, em que
eu vivia sem sobressaltos. Mas, agora tudo acabou. E tenho a certeza que o meu
dia-a-dia é este. Já o aceitei há muito. É uma eterna sucessão de medo e de
dor, uma obsessão que vivo. A sua obsessão.
Tudo
tem de estar impecável, tudo tem de estar limpo. E, o jantar tem de estar
pronto e a mesa posta para comermos. Os copos têm de estar sem manchas, os
talheres, brilhantes e os pratos, sem manchas.
Ele
chega e senta-se a comer, enquanto eu, ali fico em pé ao seu lado, a olhar para
ele e espero que ele acabe para aí sim, eu comer.
Após
ter saciado a sua fome, percorre toda a casa à procura de um qualquer erro que
eu tenha cometido. Por mais pequeno que seja. Não sossega enquanto não o
encontrar, se não existe nenhum inventa uma desculpa qualquer para justificar o
que vai acontecer de seguida.
Depois
seu que vem a fúria, por algo que estava mal ou apenas por causa da Dona Maria,
a vizinha de baixo, ter perguntado por mim.
- Tu
pensas que és quem para falar mal de mim aos vizinhos! – Grita irado, com a mão
preparada para me bater, um murro acerta directamente na minha barriga. A dor
cega-me, forço-me para não gritar, não lhe posso dar esse prazer.
Por
mais que eu jure eu nada disse, nem que saí de casa, ele não acredita e contínua
com a sua loucura e raiva infundada. Mas o que é lhe terá acontecido para ser
assim? Não sei.
A
história repete-se dia após dia. Um dia de terror, um dia de violência e raiva.
E depois? Depois vêm as desculpas, os pedidos de perdão.
- Não
sei o que aconteceu amor. – Começa ele a chorar, como se estivesse realmente
arrependido e sentisse na pele o mal que fizera. – Eu não queria. É mais forte
do que eu. Tu sabes que eu te amo, não sabes? Também me amas não amas? Nunca me
vais deixar sozinho. É que se me deixas eu morro, eu sei que morro, eu sei que
morro. Sem ti mato-me. Se tentares partir mato-te, mais ninguém te terá.
Eu
sinto pena dele e acabo sempre por o abraçar. Consolo o homem que tanto me
magoou. Abraço-o como se de uma criança se tratasse. Mas o medo, esse fica
sempre permanente em mim. Marcado como se fosse uma tatuagem na minha alma e na
minha mente. Não me consigo ver livre dele. A liberdade é algo que me é negado
com a mesma violência com que ele me agride. Pensei, em tempos, partir mas
agora é tarde demais. Já não sei como o fazer. Para onde iria? É escusado
sequer imaginar tal coisa. Com os contactos que ele possui, acabaria sempre por
me encontrar e aí seria pior com certeza.
Olho para
o relógio, este relembra-me que está quase na hora dele chegar a casa. Percorro
todas as divisões para verificar se está tudo bem. Tudo tem de estar limpo, os
armários não podem ter nem um grama de pó. Todos os biblots, os livros, as toalhas,
enfim tudo tem que estar nos seus devidos lugares, volto a verificar tudo,
lugar a lugar milímetro a milímetro. Sei que é inútil mas faço-o na mesma.
Ouço
a maldita chave que me sentencia a mais uma noite negra e prometo a mim mesma
que não vou chorar, é desta vez que não o vou.



Adorei o texto, fico ansiosa por ler mais dos teus contos :)
ResponderEliminar[howtoliveathousandlives.blogspot.pt]
Estou à espera que ela o mate...
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